Fizemos uma entrevista com a professora Cristine Conforti diretora do Ensino Fundamental 1 e da Educação Infantil para saber como a leitura está presente em seu dia a dia desde sua infância e até hoje.
Conte como foi sua iniciação na leitura?
Quando eu aprendi a ler, comecei a ficar um pouco obcecada por livro, é verdade. Hoje fico até envergonhada por isso, porque eu gostava tanto de ler que, às vezes, ia a uma festa de aniversário em que tinha muita gente e estava chata, eu ficava enfiada na biblioteca o tempo todo. Que coisa mais anti-social, não é? Mas estou falando a verdade, eu gostava muito de ler contos de fadas, histórias de muitos tipos, contos maravilhosos das Mil e Uma Noites. Essa foi a minha iniciação à leitura.
Fale sobre os livros que leu quando criança: Qual foi o primeiro? De qual mais gostou? E de qual menos gostou?
Não me lembro qual foi o primeiro, mas lembro daqueles que me deixaram marcas. Tinha uma coleção das Mil e Uma Noites para crianças, era uma coleção adaptada. As Mil e Uma Noites no original tinham uma conotação erótica e com muita violência... Então, foi feita uma adaptação para crianças que trazia esses contos modificados. Na minha coleção era tudo muito cor-de-rosa, muito romântico, não tinha nada de inadequado para crianças, e eu lia e relia. Isso foi uma marca. Quando cresci, fui ler a verdadeira coleção. Eu gostava muito de José de Alencar, os livros românticos de Joaquim Macedo. Eu lia compulsivamente qualquer coisa que aparecia na minha frente. Se eu não gostasse muito, deixava o livro de lado. Às vezes eu ficava enfiada nos livros, e aquela briga na minha casa e minha mãe me chamando: “Cris, vem almoçar”. E eu: “Que almoçar! Quem quer almoçar? Está tão bom o livro, quem pensa em comida nessa hora?” Então minha mãe brigava comigo: “Ai, essa menina não tem jeito! É uma desobediente, eu já falei que é a hora de ir almoçar!” Então eu ia porque não agüentava mais aquela bronca, mas se eu pudesse ficaria lendo.
Eu não gostei muito dos livros que li por obrigação, como os livros do colégio. Então, eu tive que ler alguns livros que, gente, eu não sei se são bons, mas para mim não foram bons. Dois deles são de um português chamado Camilo Castelo Branco, um chamava Amor de Perdição e o outro Amor de Salvação. Eram muito trágicos, eu achava de muito mau gosto e tinham descrições muito longas! O autor não acabava de descrever cada detalhe, às vezes eu pulava, eu já pulava até umas cinco ou oito páginas, porque você quer saber o que vai acontecer logo. Em compensação li outras coisas tão bonitas! Tinha um livro que eu li quando eu tinha uns 15 anos de idade, tinha acabado de sair, se chamava Cleo e Daniel, escrito por Roberto Freire. É uma história de amor, bem no estilo dos anos 70, com aquele mundo da juventude problemática. Os personagens eram problemáticos. Esse livro eu li tantas vezes que sabia de cor as frases, grifava pedaços, e eu achava lindo! Eu também gostava do Fernando Pessoa e ficava com seu livro debaixo do braço. Uma das personalidades poéticas dele se chama Alberto Caeiro, e eu ficava lendo Alberto Caeiro dia e noite. Tenho certeza que se eu mostrasse algumas coisas dele, vocês iam gostar. Ele tem uma paixão pela natureza, eu gosto muito da personalidade dele.
Seus pais liam para você? Em que momentos?
Não, meus pais não liam para mim, meus pais liam os livros deles e tinha muitos livros em casa. Meu pai gostava de ler, ele lia vários livros da área dele, Administração, Economia... Mas na minha época não era comum os pais lerem para os filhos, os filhos pegavam livros por conta própria e isso não fez diferença na minha vida. Tinha uma empregada em casa que contava histórias maravilhosamente bem. Era um prazer! E ela levava os livros não porque a gente pedia, por prazer mesmo. E enquanto ela passava roupa, contava histórias que às vezes eu até já tinha lido. Meus irmãos, que eram mais velhos que eu, às vezes caçoavam das histórias dela, mas eu gostava.
E na sua escola, sua professora lia para os alunos? Havia aulas de Leitura?
Era uma escola que tinha suas qualidades, mas era muito tradicional e a professora falava: “Vocês têm que ler por conta própria!” Então, eu ia para a biblioteca e pegava os livros e levava para casa. É, era bem diferente do que hoje em dia, eu estudei em uma boa escola pública. As escolas particulares não eram muito boas, fortes, caprichadas como a escola pública. Então, as crianças liam porque queriam. Isso de leituras obrigatórias foi só a partir da 5ª série. Mas, até a 5ª série a gente era livre, não era obrigado a ler nada. A gente lia o que queria, na hora que queria, era bem tranqüilo.
Qual a importância da leitura em sua escolha e formação profissional?
Nossa, gente, eu curto livros e fiz Letras, fui ser professora e fiz pós-graduação na mesma área, Literatura. Eu saí da faculdade e vim dar aulas aqui no Santa Cruz. E eu gostava muito de dar aula nessa área e sinto muita falta, porque agora quase não interajo com os alunos.
Agora conte sobre sua vida de leitora adulta.
Minha vida de leitora adulta é caótica. Eu não sou uma pessoa organizada com leituras, leio vários livros ao mesmo tempo, tem alguns livros que eu só leio até a metade, quando não gosto, paro. Leio muito sem preconceito, de tudo: jornal, adoro jornal, inclusive na internet, leio artigos de Filosofia, coisas de Geografia, História, mas eu gosto muito de Filosofia, muito mesmo. Gosto muito de boa poesia, boa literatura, até livros para crianças. Eu falei para vocês: ontem eu chorei quando li Kafka e a boneca viajante, gostei do livro e de ter chorado com ele.
Em síntese, leio vários livros ao mesmo tempo, alguns até o fim, outros não, livros de todos os gêneros, sem preconceito. Eu só não gosto de literatura ruim, coisas mal escritas, só disso eu não gosto.
Como a leitura está presente em seu dia-a-dia?
O tempo todo, e também eu gosto muito de estudar. Às vezes, conforme a gente vai envelhecendo, vai começando a achar que estudar é uma coisa só da pessoa mais jovem, que tem que estudar para a prova e coisas assim. Mas eu ainda adoro estudar!
Qual o seu gênero literário preferido? E seu autor favorito? Por quê?
O bom livro, Caio, o bom livro, de qualquer gênero. Mas eu gosto dos livros que falam do sentido da nossa vida, das emoções que sentimos, da complexidade da alma do ser humano, da vida que temos, das pessoas que amamos. Gosto de livros que têm essa característica um pouquinho mais filosófica.
Da literatura brasileira, eu gosto muito dos contos do Guimarães Rosa, gosto bastante da poesia do Manuel Bandeira e do Carlos Drummond de Andrade, que vocês já conhecem. Gosto de autores brasileiros e de outros países mais ou menos o mesmo tanto, mas em momentos diferentes. Por exemplo, existe um autor russo chamado Dostoiévski de quem eu sempre gostei demais, ele era do século XIX, mas os romances dele são terríveis, sabe? São muito dolorosos, mostram uma vida difícil da realidade da Rússia no fim do século XIX. Eu gosto de Kafka, que é do século XX e escrevia em alemão. Tem boas traduções de seus livros e os meus alunos do colegial também os liam comigo. Os livros dele falam dos absurdos do mundo, do absurdo da vida.
Gosto da poesia do Fernando Pessoa, que é um escritor português. Há muitos escritores que eu leio. Também gosto de leitura de teatro, as coisas que Shakespeare fez têm 500 anos e ainda me emocionam.
O que para você é mais interessante na leitura?
É a capacidade da leitura de me fazer viajar. A gente tem que tomar cuidado para não ficar preso no mundo dos livros e se alienar da realidade. Todo mundo sabe que eu gosto de me divertir, de dar risada, de passear, mas tenho que tomar cuidado para não ficar um fim de semana inteiro enfiada em um livro.
Bom, obrigado Cristine.
Vocês não têm que agradecer, foi ótimo estar aqui com vocês, foi tão bom como uma boa leitura.
Conte como foi sua iniciação na leitura?
Quando eu aprendi a ler, comecei a ficar um pouco obcecada por livro, é verdade. Hoje fico até envergonhada por isso, porque eu gostava tanto de ler que, às vezes, ia a uma festa de aniversário em que tinha muita gente e estava chata, eu ficava enfiada na biblioteca o tempo todo. Que coisa mais anti-social, não é? Mas estou falando a verdade, eu gostava muito de ler contos de fadas, histórias de muitos tipos, contos maravilhosos das Mil e Uma Noites. Essa foi a minha iniciação à leitura.
Fale sobre os livros que leu quando criança: Qual foi o primeiro? De qual mais gostou? E de qual menos gostou?
Não me lembro qual foi o primeiro, mas lembro daqueles que me deixaram marcas. Tinha uma coleção das Mil e Uma Noites para crianças, era uma coleção adaptada. As Mil e Uma Noites no original tinham uma conotação erótica e com muita violência... Então, foi feita uma adaptação para crianças que trazia esses contos modificados. Na minha coleção era tudo muito cor-de-rosa, muito romântico, não tinha nada de inadequado para crianças, e eu lia e relia. Isso foi uma marca. Quando cresci, fui ler a verdadeira coleção. Eu gostava muito de José de Alencar, os livros românticos de Joaquim Macedo. Eu lia compulsivamente qualquer coisa que aparecia na minha frente. Se eu não gostasse muito, deixava o livro de lado. Às vezes eu ficava enfiada nos livros, e aquela briga na minha casa e minha mãe me chamando: “Cris, vem almoçar”. E eu: “Que almoçar! Quem quer almoçar? Está tão bom o livro, quem pensa em comida nessa hora?” Então minha mãe brigava comigo: “Ai, essa menina não tem jeito! É uma desobediente, eu já falei que é a hora de ir almoçar!” Então eu ia porque não agüentava mais aquela bronca, mas se eu pudesse ficaria lendo.
Eu não gostei muito dos livros que li por obrigação, como os livros do colégio. Então, eu tive que ler alguns livros que, gente, eu não sei se são bons, mas para mim não foram bons. Dois deles são de um português chamado Camilo Castelo Branco, um chamava Amor de Perdição e o outro Amor de Salvação. Eram muito trágicos, eu achava de muito mau gosto e tinham descrições muito longas! O autor não acabava de descrever cada detalhe, às vezes eu pulava, eu já pulava até umas cinco ou oito páginas, porque você quer saber o que vai acontecer logo. Em compensação li outras coisas tão bonitas! Tinha um livro que eu li quando eu tinha uns 15 anos de idade, tinha acabado de sair, se chamava Cleo e Daniel, escrito por Roberto Freire. É uma história de amor, bem no estilo dos anos 70, com aquele mundo da juventude problemática. Os personagens eram problemáticos. Esse livro eu li tantas vezes que sabia de cor as frases, grifava pedaços, e eu achava lindo! Eu também gostava do Fernando Pessoa e ficava com seu livro debaixo do braço. Uma das personalidades poéticas dele se chama Alberto Caeiro, e eu ficava lendo Alberto Caeiro dia e noite. Tenho certeza que se eu mostrasse algumas coisas dele, vocês iam gostar. Ele tem uma paixão pela natureza, eu gosto muito da personalidade dele.
Seus pais liam para você? Em que momentos?
Não, meus pais não liam para mim, meus pais liam os livros deles e tinha muitos livros em casa. Meu pai gostava de ler, ele lia vários livros da área dele, Administração, Economia... Mas na minha época não era comum os pais lerem para os filhos, os filhos pegavam livros por conta própria e isso não fez diferença na minha vida. Tinha uma empregada em casa que contava histórias maravilhosamente bem. Era um prazer! E ela levava os livros não porque a gente pedia, por prazer mesmo. E enquanto ela passava roupa, contava histórias que às vezes eu até já tinha lido. Meus irmãos, que eram mais velhos que eu, às vezes caçoavam das histórias dela, mas eu gostava.
E na sua escola, sua professora lia para os alunos? Havia aulas de Leitura?
Era uma escola que tinha suas qualidades, mas era muito tradicional e a professora falava: “Vocês têm que ler por conta própria!” Então, eu ia para a biblioteca e pegava os livros e levava para casa. É, era bem diferente do que hoje em dia, eu estudei em uma boa escola pública. As escolas particulares não eram muito boas, fortes, caprichadas como a escola pública. Então, as crianças liam porque queriam. Isso de leituras obrigatórias foi só a partir da 5ª série. Mas, até a 5ª série a gente era livre, não era obrigado a ler nada. A gente lia o que queria, na hora que queria, era bem tranqüilo.
Qual a importância da leitura em sua escolha e formação profissional?
Nossa, gente, eu curto livros e fiz Letras, fui ser professora e fiz pós-graduação na mesma área, Literatura. Eu saí da faculdade e vim dar aulas aqui no Santa Cruz. E eu gostava muito de dar aula nessa área e sinto muita falta, porque agora quase não interajo com os alunos.
Agora conte sobre sua vida de leitora adulta.
Minha vida de leitora adulta é caótica. Eu não sou uma pessoa organizada com leituras, leio vários livros ao mesmo tempo, tem alguns livros que eu só leio até a metade, quando não gosto, paro. Leio muito sem preconceito, de tudo: jornal, adoro jornal, inclusive na internet, leio artigos de Filosofia, coisas de Geografia, História, mas eu gosto muito de Filosofia, muito mesmo. Gosto muito de boa poesia, boa literatura, até livros para crianças. Eu falei para vocês: ontem eu chorei quando li Kafka e a boneca viajante, gostei do livro e de ter chorado com ele.
Em síntese, leio vários livros ao mesmo tempo, alguns até o fim, outros não, livros de todos os gêneros, sem preconceito. Eu só não gosto de literatura ruim, coisas mal escritas, só disso eu não gosto.
Como a leitura está presente em seu dia-a-dia?
O tempo todo, e também eu gosto muito de estudar. Às vezes, conforme a gente vai envelhecendo, vai começando a achar que estudar é uma coisa só da pessoa mais jovem, que tem que estudar para a prova e coisas assim. Mas eu ainda adoro estudar!
Qual o seu gênero literário preferido? E seu autor favorito? Por quê?
O bom livro, Caio, o bom livro, de qualquer gênero. Mas eu gosto dos livros que falam do sentido da nossa vida, das emoções que sentimos, da complexidade da alma do ser humano, da vida que temos, das pessoas que amamos. Gosto de livros que têm essa característica um pouquinho mais filosófica.
Da literatura brasileira, eu gosto muito dos contos do Guimarães Rosa, gosto bastante da poesia do Manuel Bandeira e do Carlos Drummond de Andrade, que vocês já conhecem. Gosto de autores brasileiros e de outros países mais ou menos o mesmo tanto, mas em momentos diferentes. Por exemplo, existe um autor russo chamado Dostoiévski de quem eu sempre gostei demais, ele era do século XIX, mas os romances dele são terríveis, sabe? São muito dolorosos, mostram uma vida difícil da realidade da Rússia no fim do século XIX. Eu gosto de Kafka, que é do século XX e escrevia em alemão. Tem boas traduções de seus livros e os meus alunos do colegial também os liam comigo. Os livros dele falam dos absurdos do mundo, do absurdo da vida.
Gosto da poesia do Fernando Pessoa, que é um escritor português. Há muitos escritores que eu leio. Também gosto de leitura de teatro, as coisas que Shakespeare fez têm 500 anos e ainda me emocionam.
O que para você é mais interessante na leitura?
É a capacidade da leitura de me fazer viajar. A gente tem que tomar cuidado para não ficar preso no mundo dos livros e se alienar da realidade. Todo mundo sabe que eu gosto de me divertir, de dar risada, de passear, mas tenho que tomar cuidado para não ficar um fim de semana inteiro enfiada em um livro.
Bom, obrigado Cristine.
Vocês não têm que agradecer, foi ótimo estar aqui com vocês, foi tão bom como uma boa leitura.

Caio E. Lang, Lucas Vieira, Maria Carolina Nascimento e Victoria Leite – 4ª A.
2 comentários:
Parabéns gente,
as perguntas são bem fundamentadas e as respostas da Cristine muito boas,
Adorei!
Nossa, parabéns mesmo!
O vídeo ficou simplesmente incrível, vocês participaram envolvidos, e deixaram um tema que poderia não agradar muitas crianças que viram incrivelmente maravilhoso, me dando um gostinho de quero mais!
Falraram muito bem, não se confundiram, e ouviram muito, mas muito bem, deixando a matéria super interessante!
Parabéns mesmo novamente!
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