quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Com a morte num saco

Pedro chegou esfomeado à margem de um rio cujas águas, fundas e calmas, mostravam peixe abundante.

— Boa oportunidade — pensou — para uma bela fritada de peixes apanhados na hora! Estou certo de que alguma coisa de útil há de sair deste rio!

Não dispunha de vara nem anzol. Pensam, porém, que a falta dessas coisas representava dificuldade para ele...? Não! Malasartes cortou a vara num bambuzal próximo e com um alfinete preparou o anzol.

Sentou-se muito a cômodo e ficou a espera do peixe. Espera que espera e, ao fim de longas horas, nada mais havia conseguido do que um velho par de velhos sapatos. Pedro não se aborreceu:

— Nada do que se encontra nesse mundo é inútil! Para alguma coisa hão de ter serventia até mesmo estes velhos sapatos.

Calçou-os e continuou a viagem. Caminhava, a fome sempre aumentando, quando viu numa volta do caminho, belíssima cultura de melancias. Mas a plantação estava vigiada por um homem muito forte e, além do mais, armado com uma grossa vara.

— Como devem estar deliciosas! — exclamou Pedro — Disso mesmo que estou necessitando, nesse calor e com esta fome. Acho que desta vez tenho que praticar uma das minhas espertezas para conseguir melancias. Decerto aquele homem não há de querer presentear-me com uma! E em dinheiro para comprar, nem se pensa!

Abriu o saco velho, que nada continha, encheu de pedras e de capim e começou a gritar:

—Ajuda! Quem me ajuda a segurar a morte? Depressa, se não eu solto! Já não agüento mais...

Ao ouvir aquele estranho pedido, o vigia das melancias correu mais que depressa. Chegou, mas, desconfiado, perguntou:

— O que é que está dizendo?! Prendeu a quem?

Pedro, fingindo grande esforço para manter fechada a boca do saco, explicou:
— A morte! Eu estava aqui muito sossegado cochilando à sombra desta árvore, quando a vi chegar, caminhando na direção daquela casa...

E apontou para a casa junto ao melancial. O homem de vara perdeu a cor e murmurou:

— Credo em cruz! Aquela é a minha casa! Você fez bem em prender a morte! Cuidado, hein! Não vá deixá-la escapar!

— É — disse Pedro — pedir isso é fácil, mas segurar a danada é que são elas! Se você não me ajudar, a morte escapa-se mesmo, pois já não agüento a força que faz...

O ingênuo do homem não esteve para mais discussões. Atirou fora o cacete e caiu de rijo e em cima do saco. E Pedro não perdeu um minuto para subir na direção das melancias!

Passou-se o tempo e o bom homem, estranhando que a morte prisioneira não oferecesse resistência e que Pedro não voltasse, começou a desconfiar. Abrindo o saco com todo cuidado, só encontrou pedras, gravetos e folhas secas. Apanhou a vara e saiu como um doido a correr atrás de Pedro, que estava se deliciando com mais uma das melancias já no meio de um monte de cascas.

— Espere um pouco e já lhe conto a história da morte, seu grande malandro!

Na corrida, Pedro perdeu um pé dos velhos sapatos. Mas, com medo da raiva do homem e do peso da vara que ele carregava, nem pensou em apanhar o sapato perdido. Corria como o vento, estrada afora...

Fonte: Novas aventuras de Pedro Malasartes, Hernani Donato – Ed. Melhoramentos

Ana Beatriz Santos e André Maluf - 4ª B.

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