segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Reflexões sobre a leitura

Entrevistamos o vigilante do Ensino Médio Cristóvão Pinto para conhecer seus hábitos de leitura e suas preferências. Confira abaixo a entrevista completa.

Qual é seu nome completo, sua função aqui no colégio e há quanto tempo trabalha no Santa?
Meu nome é José Cristovão Pinto e eu trabalho no colégio desde fevereiro de 2001.
Conte como e quando foi sua iniciação na leitura?
Minha iniciação foi aos 13 anos, quando fui trabalhar em uma telefônica em minha cidade que era vizinha de uma biblioteca. Então, no tempo que sobrava eu emprestava todo tipo de livros, jornais, revistas, gibis. Eu estava entre os livros o tempo todo e não tinha como não fazer isso.

Que tipo de livros você costuma ler?
Eu leio todos os livros que servem para eu me informar sobre o mundo, sobre as coisas. Há uma escritora inglesa, Virginia Woolf, que diz o seguinte: “O livro não deve servir para entreter, para lazer, ele deve ser bom para refletir.” É isso, eu leio para refletir sobre minha vida, sobre o mundo todo.

Quantos livros você lê, em média, por mês?
Não leio muitos, uns quatro livros, porque, como disse, leio também revistas, jornais, gibis. São tantas coisas para ler, livros da minha filha que eu leio junto com ela...

Quais foram os livros de que mais gostou?
É muito difícil falar do que eu mais gostei... São tantos livros bons, tudo que a gente lê é bom, mas eu destacaria Vidas Secas, O Crime do Padre Amado, de Eça de Queiroz, destacaria também O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, Memórias Póstumas de Brás Cubas, e tantos outros, que é difícil assim lembrar. Há um outro que também serve muito para a formação do caráter do indivíduo que eu acho muito legal, O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
Você prefere ler livros de ficção ou informativos?
Se o livro traz informações úteis para mim e para quem convivo, eu acho que vale a pena ler, independente se é ficção ou não.

Onde você mais gosta de ler e durante quanto tempo faz isso por dia?
Não tenho lugar específico, leio no ônibus, no corredor onde trabalho, andando pela rua... Quando a leitura te pega, você esquece, lê andando e até tropeça.

Você tem alguma coleção favorita?
Não, e eu compro poucos livros. Como tem essa biblioteca aqui, acabo retirando os livros para ler. Não disponho de recursos para adquirir muitos livros.

Então você costuma emprestar livros da biblioteca sempre?
Sempre. Eu perturbo a Tsuya e a Neuza o tempo todo, elas buscam para mim as obras que eu quero. Elas têm mais habilidade na busca, eu estou sempre lá.

Você tem filhos? Costuma ler para eles? Conte como isso acontece.
Eu tenho quatro filhos e costumo ler para eles. Minha filha mais nova tem sete anos e estuda aqui. Ela empresta livros para ler durante a semana e lê para mim, assim como eu leio para ela. Por isso, nós acabamos lendo uma variedade grande de livros. Isso acontece quando estamos no ônibus e também na hora em que vamos dormir. Livro é sempre livro e é sempre gostoso, não tem esse negócio de Literatura Infantil.

Na sua opinião, os jovens de hoje são interessados pela leitura?
É difícil dizer. Eu convivo com muitos jovens aqui e fora daqui e não percebo muito interesse deles pela leitura. Eles lêem mais por obrigação. Eles parecem ainda não ter o gosto de ler. Acho que vão adquirir esse hábito quando estiverem mais maduros, com mais idade talvez.
Que dicas você daria para aqueles que ainda não possuem o hábito de ler por prazer?
Peguem livros mais fáceis de ler, que tenham um raciocínio mais retilíneo e você não precise ficar indo e voltando. Livros menores, que sejam talvez mais atuais e que levem também à reflexão.

Que livros você indicaria para um(a) leitor(a) iniciante do Ensino Médio?
Eu diria que eles lessem com mais apreço Vidas Secas. O livro trata da dureza da vida do nordestino, numa situação em que o homem é tratado em condições piores que a dos animais.

Quando você vai à Biblioteca, já tem o livro em mente ou as funcionárias indicam?
Geralmente a indicação vem não só da Biblioteca, mas dos colegas. Como eu lido muito com alunos e professores, eu sigo a indicação deles. Outro dia, recebi a indicação da professora Suzana de Biologia do livro O Físico e acabei levando um outro título do mesmo autor, O Último Judeu. Magnífico o enredo do livro, trata da limpeza étnico- religiosa, fiquei encantado com ele. Pretendo ler o outro título do mesmo autor.

Normalmente que pessoas lhe indicam mais livros?
Professores, alunos, revistas. Quando alguém está lendo, a gente que é leitor, é curioso e chato , você fica querendo saber a história, ver a capa.

Você costuma ir a alguma outra Biblioteca para emprestar livros?
Não, mas é um programa bem legal de se fazer. Vou à Cultura, Livraria da Vila e nem sempre eu compro , falta dinheiro. Mas chego lá, dou uma folhada nos livros e, sabendo que eu tenho estes livros aqui, falo para as meninas e elas acabam comprando. Eu compro livros no Sebo, veja um livro que custa R$ 40,00 ou R$ 50,00 acaba saindo por R$ 10,00. O Auto da barca do inferno eu paguei R$ 6,00, um Saramago, R$ 10,00.

Eu aprendi a ler por prazer quando entrei na faculdade pra fazer Letras, aos 42 anos. Eu gostava muito de gramática, assistia ao programa do Pascoale Cipro Neto, leio a coluna dele na Folha. Quando entrei na faculdade não é que eu deixei de gostar de gramática, a gramática está no livro, na cabeça. Mas eu tinha uma professora de teoria literária, Rita Couto que nos ensinou a gostar de ler, ela lia como se fôssemos crianças, ela lia para nós e eu ficava arrepiado. Éramos 80 alunos na sala e todos ficavam fixados na professora lendo.
Na minha adolescência eu parei de ler, fiquei vinte anos sem ler um livro sequer. Só não “emburreci” porque tenho o costume de ouvir rádio, televisão eu não vejo.
Eu perdi esse tempo todo sem ler um livro!

Qual seu autor preferido ?
Eu não tenho um predileto. Posso destacar Machado de Assis, um escritor que parece conhecer cada alma de cada ser humano. E tenho meu conterrâneo mineiro, Guimarães Rosa, que é uma referência para mim, cuja obra Sagarana o levou a viajar pelo sertão brasileiro. Lá você encontrará palavras que talvez o Aurélio ou Houaiss não tragam. Por exemplo, “jacuba”, uma delícia, mistura de café com leite e farinha de milho, coisa de mineiro. Destaco também Lima Barreto, escritor negro que sofreu barbaridades na época, ele trazia idéias para o Brasil, trabalhava em um jornal e sofreu muito preconceito.

Que você se lembre, seu primeiro livro era de que autor ?
O primeiro livro que eu li sozinho foi do Monteiro Lobato, o Boi Aruá, um boi muito arisco que não se deixava pegar no laço. E eu menino gostava dessas coisas de aventura, o livro me prendeu muito, mas nunca mais tive contato com ele. Eu li muita besteira nessa época, livros de faroeste que cabiam no bolso, tratavam da colonização americana, índios de pele vermelha contra os brancos. E eu, como os americanos, achava que os índios eram aquela coisa agreste, que o índio era o agressor, o intruso o bandido, quando na verdade era o americano o agressor. Esse livro valeu de alguma coisa? Foi uma literatura inútil? Não, eu consigo refletir ainda hoje sobre ele.

Caio Iglesias e Tomaz Tavassi – 4ª C

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